Em agosto de 2019 um vazamento do que parecia ser petróleo cru atingiu cerca de 2 mil km das regiões Nordeste e Sudeste da Costa brasileira, uma das maiores tragédias ambientais do país. Segundo especialistas, o derrame teria acontecido em julho, a partir de um navio de bandeira grega. Investigações da Petrobras sobre o tipo de material (uma mistura de óleos específicos) levaram à Venezuela como fonte, mas a responsabilidade do capitão e dos armadores proprietários ou aqueles que o fretaram até agora não é conhecida. Em agosto de 2020, a Marinha do Brasil não encontrou culpados para  enquadrá-los na Lei de Crimes Ambientais.

Maré de Agosto (Editora Origem, 2021) é o primeiro livro - mas não uma publicação de principiante - do soteropolitano Mateus Morbeck, que traz diferentes visões para expressar o que sentiu sobre esta tragédia. Uma delas é seu  ensaio “Noves Fora” estruturado em imagens abstratas formadas pelas manchas do óleo na água e areia de praias de diferentes estados como Bahia, Piauí, Pernambuco, Maranhão, Ceará, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte e Alagoas.  Imagens que procuram refletir sobre a tragédia causada não apenas pelo óleo, mas pelo descaso e omissão, antes, durante e depois do desastre, dizem seus editores.

A ideia de se manifestar artisticamente sobre uma tragédia, seja ela natural ou provocada por humanos, é recorrente no amplo escopo da fotografia e da arte, tanto quanto no posicionamento documental de diferentes autores. Caso por exemplo do canadense radicado nos Estados Unidos Robert Polidori, com seus livros sobre o furacão Katrina que devastou New Orleans em 2005, ou mais antigo, de 1983, sobre o acidente devastador da usina nuclear Chernobyl, ao norte da Ucrânia Soviética, com seu impactante livro Zones of Exclusion Pripyat and Chernobyl (Steidl, 2001) [ leia aqui review sobre este livro em https://blogdojuanesteves.tumblr.com/post/120624295801/zones-of-exclusion-pripyat-and-chernobyl-robert ].

Polidori passou a abordar estas temáticas a partir de imagens que fez em alguns apartamentos depredados em Nova York, cidade onde mora. Ele conta que quando começou a entrar nos lugares e fotografar ficou convencido de que havia algo intrinsecamente histórico e psíquico sobre o assunto que deveria ser capturado. “Após reflexão posterior, passei a considerar as implicações da cena como evocativas da condição humana em geral.” disse ele em  entrevista ao jornal  inglês The Independent. Da mesma forma, ele comenta que seu trabalho tem sido frequentemente criticado por falta de integridade: “porque transgride os princípios éticos ao considerar situações trágicas ou violentas artificialmente "belas”. Essa “estetização” é considerada conceitualmente perturbadora, pois, alguns argumentam, ela leva o espectador a uma experiência pela qual as realidades e suas causas são, em última análise, banalizadas e mal representadas.“ Algo a ser pensado.

Mateus Morbeck partiu da data do aparecimento da primeira mancha de óleo em cada estado e suas coordenadas geográficas. Em outra parte do livro, “Guardiões”, estão retratos dos voluntários que ajudaram na limpeza das praias. E, no ensaio “116”, o autor utiliza uma única técnica: “óleo sobre papel”, literalmente, ressignificando a tragédia. “Maré de Agosto” é um livro híbrido, que traz tanto seus trabalhos mais artísticos e autorais, como sua produção documental, mas que tem apenas um objetivo: não nos deixar esquecer do maior desastre ambiental em extensão que se tem notícia no Brasil. Sua forte e contundente palette nos impulsiona a esta preservação da memória mais recente, Morbeck teve seu primeiro contato com a fotografia em 2009, mas foi em 2017 que se deparou com a fotografia artística e, desde então, vem se dedicando à prática e ao estudo das artes visuais. Em seu trabalho, "O autor busca pelo desdobramento da imagem em camadas de significado e percepção, oferecendo diversas possibilidades de interpretação ao observador. ” argumentam seus editores. Já seu trabalho jornalístico e documental foi publicado em grandes veículos da imprensa brasileira como O Globo e Folha de S. Paulo e jornais estrangeiros como The Guardian, El País, Clarín, Le Monde, BBC entre outros.

Para o jornalista e cineasta baiano Victor Uchôa, que escreve um dos textos do livro, o fotógrafo “revelou cores e texturas de uma tragédia coletiva enfrentada sem descanso pela valentia de alguns”. Na pausa de cada imagem mora o documento que nos condena a todos por um crime que nem ao menos se sabe quem cometeu.“ Mais ainda, ele lembra que ” O Ministério do Meio Ambiente nunca acionou de forma efetiva o Plano Nacional de Contingência para incidentes de Poluição por Óleo (PNC) que foi criado em 2013 e deveria ser colocado em prática justamente em momentos como  o de 2019.“

Em que pese às dúvidas de Robert Polidori, é certo que somos sensibilizados diariamente pela tragédia. Às vezes por estarmos muito perto dela ou em outras, reverberam um eco distante. Essa interação ora acontece metaforicamente ou literalmente como em casos mais íntimos e pessoais. A tragédia, como diz o escritor Fred Plotkin,  faz parte da crueldade humana e é causada por motivações que as maiores obras de arte - incluindo ópera, teatro, cinema, literatura e pintura - nos ajudam a entender de uma maneira que um dogma, ideologia e análise não são capazes. Para ele, o significado e clareza na arte surge do pensamento vai ao encontro do  indizível e insondável. Neste aspecto Maré de Agosto torna-se um livro essencial, na pequena produção brasileira deste gênero.

Os registros de Maré de Agosto também aproximam-se destas produções que extrapolam também as artes mais consagradas, ao entrar na discussão de seu mérito pelo público, como por exemplo no editorial de agosto de 2010, "Água e Óleo” criado pela genial italiana Franca Sozzani (1950-2016), diretora da Vogue Itália e fotografado pelo americano Steven Meisel, após a explosão da plataforma petrolífera Deepwater Horizon, da British Petroleum (BP) no Golfo do México, onde 3,2 milhões de barris de petróleo largaram uma mancha monstruosa que se espalhou rapidamente pelo mar, ao largo de 35 quilômetros. A modelo Kristen McMenamy colocada junto às ondas e às rochas, moribunda, coberta de uma matéria negra tóxica e degradante. As imagens são asfixiantes, dolorosas e perturbadoras.

Para Mateus Morbeck, “A cada registro de novas praias, manguezais e estuários atingidos, as consequências trágicas dos reiterados maus-tratos ao meio ambiente ressaltam a falta de importância dispensada, oficialmente, às questões ambientais e as desigualdades regionais de hoje.” E de fato, como ele mesmo propõe em suas impactantes imagens, ele não mostra apenas registros fotográficos, mas outras novas reflexões sobre a tragédia que assolou o Brasil e vivenciada não só por ele, como por milhões de pessoas nesse período. Vale a sua proposta: “ Registro para que não se esqueça, mostro para que se importe.”

O livro, que também traz texto de Fábio Gatti, teve o apoio financeiro da Secretaria de Cultura e da Fundação Cultural do Estado da Bahia pela Lei Aldir Blanc e foi desenvolvido no âmbito do Ativa Atelier Livre. Foi editado pelo fotógrafo e publisher paulista Valdemir Cunha,  projeto gráfico da Editora Origem, edição bilíngue português-inglês, com tratamento de imagem e impressão em papel Eurobulk e Pólen, pela gráfica paulista Ipsis, com realização de Lanussi Pasquali e Ativa Atelier Livre.
 
Juan Esteves
Fotógrafo e jornalista
Resenha sobre o livro "MARÉ DE AGOSTO" publicado em 21/06/2021, no Blog do Juan Esteves
In August 2019, a spill of what appeared to be crude oil hit about 2,000 km of the Northeast and Southeast regions of the Brazilian coast, one of the greatest environmental tragedies in the country. According to specialists, the spill would have happened in July, from a Greek-flagged ship. Petrobras' investigations into the type of material (a mixture of specific oils) have led to Venezuela as a source, but the responsibility of the captain and the owners or those who chartered it so far is not known. In August 2020, the Brazilian Navy found no culprits to be included in the Environmental Crimes Law.

Maré de Agosto (Origin Publishing, 2021) is the first book - but not a beginner's publication - by the Salvadoran Mateus Morbeck, which brings different views to express what he felt about this tragedy. One of them is his essay “Noves Fora” structured in abstract images formed by oil stains in the water and sand of beaches in different states such as Bahia, Piauí, Pernambuco, Maranhão, Ceará, Sergipe, Paraíba, Rio Grande do Norte and Alagoas. Images that seek to reflect on the tragedy caused not just by the oil, but by neglect and omission, before, during and after the disaster, say its editors.

The idea of ​​artistically manifesting oneself about a tragedy, whether natural or caused by humans, is recurrent in the broad scope of photography and art, as well as in the documental positioning of different authors. For example, the Canadian based in the United States, Robert Polidori, with his books about Hurricane Katrina that devastated New Orleans in 2005, or earlier, from 1983, about the devastating accident of the Chernobyl nuclear power plant, in the north of Soviet Ukraine, with his striking book Zones of Exclusion Pripyat and Chernobyl (Steidl, 2001) [ read here review about this book at https://blogdojuanesteves.tumblr.com/post/120624295801/zones-of-exclusion-pripyat-and-chernobyl-robert ].

Polidori started to address these themes based on images he made in some derelict apartments in New York, the city where he lives. He says that when he started to enter places and photograph, he was convinced that there was something intrinsically historical and psychic about the subject that should be captured. "After further reflection, I came to regard the implications of the scene as evocative of the human condition in general." he said in an interview with the English newspaper The Independent. Likewise, he comments that his work has often been criticized for lack of integrity: "because it violates ethical principles by considering tragic or violent situations artificially "beautiful". This "aestheticization" is considered conceptually disturbing because, some argue, it leads the viewer to an experience in which realities and their causes are, in the final analysis, trivialized and misrepresented.” Something to think about.

Matthew Morbeck started from the date of appearance of the first oil slick in each state and its geographic coordinates. Elsewhere in the book, “Guardians”, are portraits of the volunteers who helped clean up the beaches. And, in the essay “116”, the author uses a single technique: “oil on paper”, literally giving new meaning to tragedy. “Maré de Agosto” is a hybrid book, which brings both his most artistic and authorial works, as well as his documentary production, but which has only one objective: not to let us forget the greatest environmental disaster in terms of extent that is known in Brazil. Its strong and forceful palette drives us to this preservation of the most recent memory, Morbeck had his first contact with photography in 2009, but it was in 2017 that he came across artistic photography and, since then, he has been dedicating himself to practice and study of the visual arts. In his work, "The author seeks to unfold the image into layers of meaning and perception, offering various possibilities of interpretation to the observer." argue his editors. His journalistic and documentary work was published in major vehicles of the Brazilian press such as O Globo and Folha de S. Paulo and foreign newspapers such as The Guardian, El País, Clarin, Le Monde, BBC among others.

For the journalist and filmmaker from Bahia, Victor Uchôa, who writes one of the texts in the book, the photographer “revealed the colors and textures of a collective tragedy faced relentlessly by the bravery of some”. In the pause of each image lives the document that condemns us all for a crime that we don't even know who committed it.” Moreover, he remembers that “The Ministry of the Environment has never effectively activated the National Contingency Plan for incidents of Oil Pollution (PNC) which was created in 2013 and should be put into practice precisely at times like 2019. "

Despite Robert Polidori's doubts, it is certain that we are touched daily by the tragedy. Sometimes because we are very close to it or at other times, a distant echo reverberates. This interaction sometimes takes place metaphorically or literally as in more intimate and personal cases. Tragedy, as writer Fred Plotkin says, is part of human cruelty and is caused by motivations that the greatest works of art - including opera, theater, film, literature and painting - help us to understand in a way that a dogma, ideology and analysis are not capable. For him, meaning and clarity in art arises from thought and meets the unspeakable and unfathomable. In this aspect, Maré de Agosto becomes an essential book in the small Brazilian production of this genre.

The records of Maré de Agosto are also close to these productions that also extrapolate the most consecrated arts, by entering into the discussion of their merit by the public, as for example in the editorial of August 2010, "Água e Óleo" created by the Italian genius Franca Sozzani (1950-2016), director of Vogue Italia and photographed by the American Steven Meisel, after the explosion of the Deepwater Horizon oil platform, of British Petroleum (BP) in the Gulf of Mexico, where 3.2 million barrels of oil left a slick monstrous that spread rapidly across the sea over 35 kilometers The model Kristen McMenamy placed by the waves and rocks, dying, covered in toxic and degrading dark matter.The images are stifling, painful and disturbing.

For Mateus Morbeck, "With each record of new beaches, mangroves and estuaries affected, the tragic consequences of repeated mistreatment of the environment highlight the lack of importance officially given to environmental issues and today's regional inequalities." And in fact, as he himself proposes in his impacting images, he shows not only photographic records, but other new reflections on the tragedy that devastated Brazil and experienced not only by him, but also by millions of people during this period. Your proposal is worth it: “Register so you don't forget, I show you so that you care.”

The book, which also has a text by Fábio Gatti, had the financial support of the Department of Culture and the Cultural Foundation of the State of Bahia, through the Law Aldir Blanc, and was developed within the scope of the Ativa Atelier Livre. It was edited by photographer and publisher from São Paulo  Valdemir Cunha,  graphic project by Editora Origin, bilingual Portuguese-English edition, with image processing and printing on Eurobulk and Polen paper, by the São Paulo graphic arts Ipsis, with realization by Lanussi Pasquali and Ativa Atelier Livre.

Juan Esteves
Photographer and journalist
Review of the book "MARÉ DE AUGUST" published on 06/21/2021, on Juan Esteves Blog

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