Azul Petróleo

as ondas iguais, diversas no tempo 
vindas e idas coincidentes
o mar repete-se costumeiramente com
nomes específicos para a mesma água
a areia esfoliava o vento, soprando a maresia 
preso à espuma, o sal
imparável
a vida se apresenta no hábito
a repetição se torna novidade
a repetição se torna diferença
o outro do mesmo 
nas horas marcadas pelos algarismos
era dia
agora noite
depois do passado o futuro é presente
os números repetidos
as marolas palimpsestos
em tudo a reincidência metastática
contadas 1+1+6 = 8
o looping
o interminável 
o toque entre as superfícies e
a aderência das substâncias
decalques da infinitude
repetições das águas, ondas, números 
do dano
fotos-contato, fatos-sudário
múltiplos reflexos de um único espelho
amiúdes repetências, mínimas pessoas
de todos os lados, impregnadas
morte, dúvida, vontade e esperança
o horizonte fixo, os olhos arregalados
e um escárnio institucional
contumácia evidente
tragédia ou crime? 
o peso-morto a balbuciar vazios
embora guardiões se levantem
a pele salinizada arde
xawara, calor, horror
amor 
ponteiros inalterados, suspensos
mesmidade sem fim

repetidas diferentes horas e cores
de petróleo e mar
a prova dos nove conclui-se cabal nas
vindas e idas coincidentes
as ondas iguais, diversas no tempo 

Fábio Gatti
Artista Visual
Texto acerca dos trabalhos sobre o derramamento de óleo no litoral do Brasil
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